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Obesidade também pode ser consequência da ansiedade – Por Flávia Libonati, endocrinologista na Barra da Tijuca

Durante muitos anos, a obesidade foi tratada como sinônimo de excesso: excesso de comida, de gordura, de sedentarismo. Essa visão simplificada não apenas falhou em conter o crescimento dos casos, como também reforçou o estigma e a culpa em quem já enfrenta uma condição complexa.

Na minha prática clínica, observo com frequência que o excesso de peso e a obesidade não começam no prato. Em muitos pacientes, eles são consequência de um processo invisível que envolve ansiedade crônica, desregulação hormonal e padrões compulsivos de comportamento alimentar. Entender essa relação é fundamental para um tratamento realmente eficaz.

A obesidade é reconhecida como uma doença crônica, multifatorial e recidivante. Seu desenvolvimento envolve genética, ambiente, metabolismo, hormônios e comportamento. No entanto, ainda é comum que o tratamento se concentre exclusivamente na contagem de calorias, ignorando os fatores emocionais e neurobiológicos que sustentam o ganho de peso.

O cérebro exerce papel central nesse processo. A regulação da fome e da saciedade depende de uma rede complexa que envolve o hipotálamo, o sistema de recompensa, neurotransmissores como dopamina e serotonina, além de hormônios como leptina, grelina, insulina e cortisol. Quando essa rede está desregulada, comer deixa de ser apenas uma resposta fisiológica à fome e passa a funcionar como uma estratégia de regulação emocional.

A ansiedade não se manifesta apenas em quadros formais, como no transtorno de ansiedade generalizada ou crises de pânico. Muitos pacientes convivem com um estado de ansiedade basal persistente – uma sensação constante de tensão, inquietação e dificuldade de relaxar.

Esse estado crônico ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, elevando os níveis de cortisol. O excesso de cortisol está associado a aumento da resistência à insulina, maior armazenamento de gordura – especialmente na região abdominal – e maior dificuldade de perda de peso. Ou seja, a ansiedade não impacta apenas o comportamento alimentar. Ela também altera o metabolismo.

A compulsão alimentar é frequentemente interpretada como falta de controle ou fraqueza individual. Do ponto de vista médico, essa leitura é equivocada. A compulsão pode emergir em contextos de estresse crônico, privação alimentar rígida, desregulação emocional ou alterações neuroquímicas. Em muitos casos, ela representa uma tentativa do cérebro de aliviar estados internos de tensão e desconforto.

Comer ativa o sistema de recompensa, promovendo liberação de dopamina e proporcionando alívio momentâneo. O problema é que esse alívio é temporário — e o ciclo se repete.

O ciclo ansiedade–compulsão–ganho de peso

Clinicamente, é comum observar o seguinte padrão:

  • Ansiedade persistente
  • Episódios de compulsão alimentar
  • Culpa e sensação de fracasso
  • Intensificação da ansiedade
  • Ganho progressivo de peso

Com o tempo, o peso passa a ser apenas a consequência visível de um processo biológico e emocional mais profundo. Quando tratamos apenas a balança, ignoramos a raiz do problema.

O tratamento eficaz da obesidade exige uma abordagem individualizada e integrada. Isso inclui avaliação metabólica, hormonal, nutricional e, quando necessário, suporte psicológico ou psiquiátrico.

É essencial investigar alterações hormonais, resistência à insulina, distúrbios do sono e outros fatores que podem perpetuar o ciclo de ganho de peso. O objetivo não é impor restrições cada vez mais rígidas. É restaurar equilíbrio metabólico, reduzir a ansiedade e criar estratégias sustentáveis de regulação emocional e alimentar.

A obesidade não começa no prato e não termina na balança. Em muitos casos, ela se constrói silenciosamente a partir de ansiedade crônica e mecanismos biológicos que reforçam comportamentos compulsivos. Substituir julgamento por compreensão científica é um passo decisivo para promover saúde de forma mais humana e eficaz.

Buscar avaliação médica especializada pode ser o início de um processo de cuidado que vai além da perda de peso – e alcança qualidade de vida.

Dra. Flávia Libonati é médica especialista em Endocrinologia e Metabologia, Nutrologia  e Clínica Médica. Pós graduada em Psiquiatria da criança, do adolescente e do adulto, além de pós-graduada em Homeopatia e Ortomolecular. Possui CRM-RJ 5274195-7, RQE 15644 (Endocrinologia e Metabologia), RQE 14380 (Nutrologia) e RQE 14479 (Clínica Médica). Atua com abordagem integrada, considerando aspectos hormonais, metabólicos e comportamentais na promoção da saúde.

Consultório: Av. Evandro Lins e Silva, 840 – sala 1106 – Barra da Tijuca – Rio de Janeiro/RJ
WhatsApp: (21) 99537-9435
Site: vidanutridraflavia.com.br
E-mail: flavialibonati@hotmail.com
Instagram: @vidanutri_dra_flavia

Etiquetas: , , Last modified: Março 7, 2026
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