Nem toda violência deixa marcas visíveis. Há uma forma de abuso que se infiltra nas relações de forma quase imperceptível, mas que corrói por dentro: a violência silenciosa. Trata-se de atitudes e comportamentos que buscam controlar, desvalorizar e desumanizar mulheres, não pelo grito ou pela agressão física, mas por meio de microagressões diárias, manipulação, coação e isolamento social.
Muitas vezes, ela se confunde com gestos normalizados ao longo da história e passa despercebida — até por quem a sofre. Essa violência não se restringe aos relacionamentos afetivos. Ela atravessa gerações e contextos, atinge a mulher que cuida de um familiar em estado terminal, a idosa que enfrenta a solidão, a indígena em meio a conflitos internos e externos, aquelas que sustentam financeiramente a família ou que ousam ocupar cargos de poder ainda majoritariamente masculinos.
Em todos os cenários, o silêncio pesa — e machuca. Angela Davis nos lembra que a opressão das mulheres é uma questão central na luta por justiça e igualdade. E é justamente por estar tão entranhada nas estruturas sociais, culturais e profissionais que a violência silenciosa é tão difícil de ser reconhecida. Ela mina a autoestima, instala sentimentos de inadequação e promove o isolamento. Em mais de duas décadas de atendimento clínico, vi como essa forma de violência atravessa diferentes idades, classes sociais e culturas.
São padrões patriarcais disfarçados em comportamentos aparentemente “inofensivos”, mas que mantêm a submissão feminina e reforçam o controle masculino. Romper esse ciclo é um desafio. Racismo, preconceito, feminicídio, padrões midiáticos e pressões sociais atuam como forças que naturalizam a violência.
Nesse contexto, a psicoterapia se torna um espaço vital: é nela que a mulher pode nomear sua dor, reconhecer padrões e se fortalecer. No encontro terapêutico, seja individual ou em grupo, há espaço para resgatar autoestima, construir autoconhecimento e, sobretudo, romper o silêncio. O depoimento de uma paciente expõe a crueldade desse processo: “O pai da minha filha sempre foi violento.
Depois das agressões físicas, ele me tratava como se eu fosse a mulher mais amada do mundo. Eu sustentava a casa enquanto ele fazia ‘bicos’. Até que um dia apanhei tanto que meus dois olhos ficaram fechados. Na delegacia, além da dor, enfrentei outra violência: policiais despreparados me perguntaram logo de início ‘o que você fez para ele fazer isso com você?’ Eu, vítima, ainda precisava provar que era vítima.”
Esse relato cru revela mais do que violência doméstica: mostra também o peso do racismo institucional, já que a autora é uma mulher preta. Como aponta Angela Davis, mulheres negras enfrentam não apenas a opressão de gênero, mas também desigualdades de classe e violência sistêmica, compondo um quadro ainda mais complexo. Gloria Steinem já dizia que o silêncio imposto às mulheres é uma forma de opressão.
Ao minimizar ou relativizar o abuso, muitas sequer se percebem como vítimas. Reconhecer que a violência silenciosa é atravessada por marcadores como gênero, raça e classe é o primeiro passo para quebrar esse ciclo. É preciso falar. É preciso ocupar espaços de escuta. Como Safatle sugere, “produzimos um novo mundo através de novos afetos e novas formas de amar”. Desmontar estruturas sociais enraizadas é tarefa coletiva — e começa pelo reconhecimento da dor.
O convite é à reflexão: qual é o nosso papel diante das múltiplas realidades femininas? O que fazemos pelas mulheres que cuidam até o fim, pelas que enfrentam a solidão, pelas indígenas, pelas chefes de família, pelas líderes políticas, pelas que desafiam papéis impostos pelo patriarcado? O silêncio pode ser um cárcere.
Mas a palavra, quando dita, tem o poder de libertar.

Juliana Roque Mãe, professora, graduada em Psicologia Clínica (UESA-RJ), Especialista em Saúde Mental na Infância e Adolescência e Introdução à Neuropsicologia (PUC-RJ). Formada em Terapia Familiar Sistêmica, Especialização em DBT (INTCC-RJ) e Perita em Psicologia Jurídica. Estuda e atua nos desdobramentos culturais, sociais e psicológicos da violência silenciosa.
Consultório: Av. Ataulfo de Paiva, 135 – Leblon, Rio de Janeiro/RJ.
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